Investir em café: é hora de apostar em uma das commodities que mais se valorizaram em 2024?

Preço do café deve subir no curto prazo, contudo, ganhos com a commodity não são tão certos assim para 2025; entenda

Investidores, produtores, varejistas e outros agentes da cadeia do café já trabalham com a perspectiva de que a safra que movimentará os preços a partir de meados de 2025 seja mais fraca que a anterior. Assim, será que é uma boa investir em café, a segunda commodity agrícola que mais se valorizou em 2024?

A Inteligência Financeira já explicou que o preço do café para o consumidor final deve subir no curto prazo, por conta das movimentações do mercado no fim de 2024. Contudo, alguns especialistas avaliam que isso não significa que a tendência seja positiva para o investidor tendo em vista o que vem pela frente.

Isso porque é possível que haja redução importante da demanda se o produto atingir preços muito altos após uma safra menor.

Se isso acontecer, a tendência é que o preço se estabilize ou até caia em um recorte de tempo maior.

“Existe uma dúvida. Será que o consumidor vai demandar o mesmo volume que ele demandava de café extraforte e tradicional (os mais consumidos) com o pacote de 500 gramas custando entre R$ 27 e R$ 30, sendo que em janeiro de 2024 o custo era de R$ 15?” O questionamento é de Vicente Zotti, sócio da Pine, consultoria especializada em commodities agrícolas.

Segundo a Pine, as torrefações que arriscaram repassar o preço viram o volume de vendas cair de 20% a 30%.

Assim, um salto do preço do café agora, no começo do ano, deve ser seguido de um ajuste a patamares mais baixos no momento seguinte. “A menos que a gente veja demanda resiliente”, acrescenta o sócio da Pine.

Diante disso, vale investir em café agora?

Para Vitor Duarte, diretor de Investimentos da Suno Asset, o preço do café “já subiu o suficiente”.

Assim, “a oportunidade para o investidor já passou”, avalia Duarte, ao dizer que o preço futuro e a liquidez dos contratos de café estão muito baixos. Assim, as tradings de café estão dando preços bem abaixo nas propostas de contratos futuros.

Os compradores estão colocando os preços das sacas perto de R$ 1.600 para contratos futuros de seis meses. Atualmente, o valor do café à vista está em R$ 1.800.  

“A curva (de preços futuros) está invertida. Isso significa que tem alguma distorção acontecendo, porque sempre o futuro tem que ser maior que o spot (à vista). Então, se você quer comprar o café prefixado, você tem que pagar o preço à vista mais algum valor. Esse é o normal”, explica Duarte.

“Hoje, há uma disfunção. E qual é? Não há café suficiente agora, mas a perspectiva é que os estoques sejam recompostos, ao menos parcialmente, na próxima safra. Assim, o preço pode cair”, complementa o analista da Suno.

Momento ‘não é adequado’ para investir em café via derivativos, diz consultor

Zotti, da Pine, diz que “o momento de preço não é adequado para a compra de derivativos”. Nesse sentido, o cenário é turvo, difícil de enxergar muito mais adiante com alguma precisão. Assim, mesmo para quem deseja operar vendido, o especialista considera muito arriscado apostar contra o café.

“A gente acredita que, na entrada da safra, pensando nos meses de maio, junho e julho, sazonalmente, a gente pode ter um movimento de queda. Mas por causa desse cenário de uma oferta mais restrita talvez a queda também não seja muito forte”, diz. 

“Então, entrar vendido tem pouca simetria hoje devido à questão da oferta e entrar comprado tem pouca simetria devido à questão da demanda, que ainda é incerta. Então, para os investidores em derivativo, em contrato futuro, a nossa sugestão é ficar de fora, neutro”, acrescenta Zotti.

CRAs inspiram cuidados, mas há oportunidades

Outra opção para investir em empresas do segmento de café são os créditos de recebíveis do agronegócio, os CRAs. Contudo, mesmo esses têm apresentado desafios para o investidor.

“Hoje, há CRAs que estão em risco, especialmente para quem é o participante do meio (da cadeia). No caso, torrefação e trading”, diz Zotti. “É o pior momento de margem”, acrescenta. Por isso, houve caso em que foi preciso chamar os cotistas para tentar acertar novas garantias para os CRAs. 

Assim, para os títulos emitidos, se o player estiver pagando aquilo que deve com rigor, tiver uma estrutura de garantia muito boa, talvez o investimento compense em termos de risco e retorno “porque está pegando o momento de maior estresse do setor daquele elo da cadeia. E, mais para frente, isso tende a melhorar, com o investidor tendo uma garantia melhor dessa exposição”.

Contudo, Zotti diz que o ideal para o investidor desse meio do elo da cadeia – torrefação e trading – é entrar em títulos novos e ignorar aqueles que já existem, “porque aí o investidor entra agora, quando não há alavancagem”, explica.

Ações que contemplam o café

Há opções também no mercado de ações. E, neste caso, há players locais, como a Camil, e internacionais, como a Starbucks.

A Camil (CAML3), famosa pelo arroz, comprou operações de café e agora tem a marca Café União. A companhia adquiriu empresas expostas a esse mercado, como a Agro Coffee e o Café Bom Dia. “Essas empresas tendem a refletir as oscilações no mercado de café, oferecendo uma maneira indireta, mas eficiente, de se expor ao setor”, diz Patrick Buss, operador de renda variável da Manchester Investimentos

“Talvez seja uma opção porque a Camil hoje está querendo ganhar market share e tem diversificação de produtos”, diz Zotti. Nesse sentido, estão na lista da Camil, além do arroz e do café, açúcar, trigo e outros vários produtos dentro de alimentos. Assim, a empresa pode ajudar o investidor a se proteger da inflação em 2025.

Contudo, pensando que o mercado brasileiro de ações é bastante volátil, Zotti prefere a Starbucks (SBUB34) como possibilidade.

“Então, dentro do cenário de investimento em café seja interessante pensar numa cafeteria no exterior porque lá o poder de compra é muito maior do que aqui. Além disso, no Brasil, nós estamos expostos ao real contra o dólar. Então, podemos perder tanto na queda do café quanto na alta do dólar”, arremata. 

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