Sucessor de David Solomon no Goldman Sachs: John Waldron é o favorito?
No fim de 2024, John Waldron precisava fazer uma escolha de US$ 500 milhões. Waldron, presidente e chefe de operações do Goldman Sachs, foi abordado pela Apollo Global Management com uma oferta de emprego capaz de mudar sua vida de tanto dinheiro, mesmo em comparação aos US$ 30 milhões que havia ganho no ano anterior.
A gestora de investimentos estava colocando à sua frente um pacote de remuneração que, em poucos anos, totalizaria várias centenas de milhões de dólares, podendo chegar até a meio bilhão, segundo fontes a par da proposta.
Waldron, de 56 anos, informou o chefe, David Solomon, 63. Os dois se conheciam havia décadas, tendo ascendido lado a lado até ocuparem os dois cargos mais altos do banco. Pessoas que já trabalharam com eles descrevem o relacionamento como quase fraternal, com Solomon no papel do irmão mais velho protetor.
Não era segredo que, algum dia, Waldron esperava suceder Solomon à frente do Goldman. Ainda assim, de forma reservada, alguns que estavam cientes das conversas com a Apollo Global Management achavam que Waldron seria louco em não aceitar uma oportunidade tão lucrativa, em especial se levasse em conta como Wall Street está cheia de aspirantes a executivo-chefe que nunca alcançaram o cargo.
No fim das contas, Waldron permaneceu no Goldman e foi recompensado com uma bonificação de retenção de cinco anos no valor de US$ 80 milhões (ainda bem menos que ele poderia ganhar na Apollo), além de um assento no conselho de administração e do direito a um maior uso pessoal do avião particular do banco.
Toda essa movimentação aparentemente confirmou o que muitos no Goldman suspeitavam há tempos: que Solomon e o conselho já optaram por Waldron como o herdeiro aparente do banco de investimentos de Wall Street de 156 anos de história.
“John Waldron só perde a chance de se tornar o próximo executivo-chefe do Goldman Sachs, provavelmente nos próximos cinco anos, se for por culpa dele”, diz Mike Mayo, analista especializado em bancos no Wells Fargo.
Caso, de fato, Waldron suceda Solomon e se torne o segundo executivo da área de banco de investimento consecutivo a comandar a empresa, isso quebraria décadas de precedentes no Goldman. Por tradição, para preservar o delicado equilíbrio entre as raízes do Goldman nas áreas de corretagem e de banco de investimento, o cargo costuma alternar-se entre ambas.
Embora alguns ex-funcionários do Goldman ressaltem que a corrida pode não estar tão definida assim, o fato de Solomon ter conseguido colocar um aliado próximo como seu possível sucessor ressalta o quanto ele reafirmou o controle sobre o banco após um período conturbado em 2023.
Uma transição tão telegrafada assim (ao menos vendo de fora) chama a atenção pelo forte contraste com a maioria das outras batalhas de sucessão em Wall Street — inclusive na própria história recente do Goldman —, nas quais normalmente sabe-se de antemão que há vários candidatos em disputa pelo cargo mais alto.
“Esta não é a corrida de cavalos que eles tiveram [há dois anos] no Morgan Stanley. Não é [a dúvida sobre] ”quem vai suceder Jamie Dimon no J.P. Morgan?””, diz Mayo. “A verdadeira dúvida, já que a sucessão parece tão clara, é como eles vão acalmar outros executivos de alto escalão no Goldman Sachs.”
Entrevistas com mais de 20 de seus colegas atuais e antigos, clientes e outras pessoas que conhecem a carreira de Waldron pintam o retrato de um encantador de clientes, admirado por eles e conhecido por sua ética de trabalho incansável e capacidade de construir pontes entre os diferentes ramos de atuação do banco.
Ele continuou como um aliado próximo de Solomon, ao mesmo tempo em que conseguiu manter o apoio dos cerca de 400 sócios do banco, apesar do envolvimento de ambos na custosa aventura do Goldman no varejo bancário.
Em alguns círculos, entretanto, existe a percepção de que Waldron possa ser do tipo que se preocupa demais em agradar aos outros e, portanto, de que possa encontrar dificuldades para tomar as decisões difíceis necessárias para administrar um banco como o Goldman. Ele precisará mostrar que pode crescer sem Solomon, que serviu de guia para sua carreira antes mesmo de recrutá-lo pela primeira vez há mais de 20 anos.
“O mundo nunca viu um John sem a influência de David”, disse uma fonte que trabalhou com ambos. “Nenhum de nós sabe como seria.”
O Goldman não quis comentar sobre o processo de sucessão. A Apollo também se recusou a comentar o assunto.
“Tive o privilégio de trabalhar com John por 33 anos”, disse Solomon, em comunicado. “Ele é um executivo de banco de investimento, parceiro de negócios e profissional extraordinário — mas, mais do que tudo, ele tem sido um amigo extraordinário.”
Nascido em Cleveland, Ohio, Waldron estudou inglês e finanças no Middlebury College, uma escola de artes liberais em Vermont. Ele chegou a pensar em se tornar escritor, mas mudou de ideia após um programa de negócios de verão na Universidade de Chicago.
Um ano depois, iniciou a carreira em Wall Street no agora extinto Bear Stearns. O banco de investimentos de perfil agressivo não tinha o prestígio do Goldman, mas Waldron aprendeu a analisar balanços no setor de finanças alavancadas do grupo.
Foi durante seus oito anos no Bear que ele conheceu Solomon, que então trabalhava com títulos de alto rendimento. A conexão se tornaria a mais importante da carreira de Waldron. Solomon recrutou Waldron para o Goldman em 2000, um ano depois de ele próprio ter trocado um banco pelo outro.
Com o correr dos anos, Waldron foi ascendendo junto com Solomon, ajudando a administrar a área especializada em mídia e entretenimento, a de patrocínios financeiros e a de atendimento a clientes. Ele conquistou vários negócios graças ao que seus clientes descrevem como sua disposição para “ouvir primeiro e aconselhar depois”.
“Eu tinha muita fé em John”, diz David Cote, ex-executivo-chefe da empresa industrial Honeywell, que continua cliente do Goldman. “Quando ele me dizia algo, eu podia confiar. Ele não ficava pensando apenas, que forma posso dizer isso para fechar um negócio?”
Em 2014, Waldron foi indicado codiretor de banco de investimento, ao lado de Solomon, que vinha sendo um dos líderes da divisão desde 2006. Passados quatro anos, depois de Solomon suceder Lloyd Blankfein como executivo-chefe, ele promoveu Waldron para o cargo de presidente e diretor de operações do Goldman.
A promoção colocou Waldron, de imediato, como nome mais provável para ser o próximo executivo-chefe do Goldman. Tanto Solomon quanto Blankfein haviam sido presidentes, embora outros nomes como Gary Cohn, John Thain e John Thornton também tenham exercido o cargo, mas sem depois virarem executivos-chefes.
Waldron já comentou em outras ocasiões sobre as diferenças entre seu papel de diretor de operações, no qual lida diretamente com o dia a dia dos negócios do Goldman, e o de presidente, no qual se relaciona com clientes, governos e autoridades reguladoras. “Eles gostam do título de presidente”, disse em podcast em 2019.
Em 2020, ele ajudou a United Airlines a usar seu lucrativo programa de fidelidade como garantia para um empréstimo, o primeiro negócio do tipo no setor. “Uma das coisas que gosto no John é que ele é o executivo de banco de investimento de escalão mais alto que está em contato regularmente com clientes”, diz Scott Kirby, executivo-chefe da United.
“Como ele conversa com tantas pessoas, minha sensação quando falo com ele é que ele me dá mais perspectivas e insights sobre o que está ocorrendo na economia e no mundo”, acrescenta Kirby.
Waldron também tem sido para Solomon um solucionador de problemas do tipo faz-tudo, encarregado de resolver os detalhes de projetos internos, como a expansão dos escritórios do Goldman em Dallas e em Salt Lake City.
Junto com Solomon, ele tem sido um dos principais defensores da ampliação da divisão de gestão de ativos e fortunas do Goldman, uma iniciativa bem recebida por muitos investidores. Algumas pessoas de dentro do banco acreditam que esse segmento será o motor da próxima fase de crescimento do Goldman.
Convencer funcionários de alto escalão a permanecer no banco quando recebem ofertas para sair também costuma ser responsabilidade dele. Ele também tem forte envolvimento na integração entre as áreas de banco de investimento, corretagem e gestão de dinheiro. Segundo executivos, isso ajudou o Goldman a conseguir mais negócios com seus maiores clientes.
“Ele é o único que não esteve preso a uma unidade específica nos últimos seis anos e meio; ele transcendeu todas as divisões”, diz Ashok Varadhan, cochefe do setor global de banco de investimento e mercados do Goldman. “Ele teve uma visão de todas as áreas do banco por um longo período.”
Sob a liderança de Solomon e Waldron, as ações do Goldman valorizaram-se cerca de 130%. Os lucros do banco em 2024 foram quase 40% maiores do que no ano em que assumiram.
Alguns ex-colegas, porém, apontam falhas em seu histórico. Eles citam o quadro pessoal do Goldman, que passou de cerca de 36 mil, quando Solomon e Waldron assumiram, para um pico recente de 48 mil, com a contratação de engenheiros e de especialistas em investimento e em conformidade com as regras. Em 2023, o Goldman acabou precisando realizar uma dolorosa rodada de cortes.
“Esses investimentos foram necessários. O crescimento de nossas operações superou em muito o crescimento do nosso quadro de funcionários”, disse um porta-voz do Goldman.
Ambos também promoveram a incursão do Goldman no setor bancário de varejo, uma estratégia que acabou custando mais de US$ 3 bilhões em perdas antes dos impostos desde 2020 até ser revertida em 2022. Solomon encarregou Waldron de administrar esse recuo.
“Waldron trabalha muito arduamente, mas nem sempre no que é mais importante”, diz uma pessoa que trabalhou com ele.
Além disso, há dúvidas sobre sua capacidade de tomar decisões impopulares. “Ele não tem algumas das características mais duras de David”, diz outro ex-colega. “A única dúvida sobre ele é: será que ele é durão o suficiente para comandar uma organização grande e complexa com montes de interesses conflitantes?”
Outro ponto negativo na trajetória de Waldron e Solomon foi o acordo judicial de US$ 3,9 bilhões assinado com a Malásia referente ao papel do Goldman no escândalo de corrupção do fundo estatal de investimentos 1MDB. Embora o banco tenha declarado que Solomon e Waldron não estavam envolvidos nem tinham conhecimento de qualquer atividade ilícita, houve descontos em suas remunerações em 2020 em razão da “falha institucional”.
Algumas pessoas dentro do Goldman veem Waldron como o “policial bonzinho” e Solomon como o “policial durão” — uma ironia, tendo em vista que Solomon, antes de ser executivo-chefe, tinha a reputação de ser capaz de encantar os funcionários. Ainda é incerto que tipo de líder Waldron seria sem Solomon como superior.
Setembro de 2023 foi um momento decisivo na história recente do Goldman, quando os custos da investida do banco no varejo ficaram mais evidentes.
Solomon já vinha sendo alvo de críticas na imprensa e entre seus homólogos por essa estratégia. À medida que os custos aumentavam e funcionários de alto escalão sentiam o impacto em suas remunerações e bonificações, a insatisfação dentro do banco foi crescendo.
Adebayo Ogunlesi, na época o principal diretor independe do conselho do Goldman, precisou intervir, fazendo uma declaração pública de apoio do conselho a Solomon, o que protegeu sua posição.
“É o conselho que decide o destino do executivo-chefe”, disse um funcionário do Goldman na época. “O povo organizou um levante. O povo perdeu porque o conselho se pronunciou [com a palavra final].”
Depois dessa intervenção, alguns colegas esperavam que Solomon permaneceria como executivo-chefe por mais três anos, mas agora ele vem indicando que poderia continuar por até mais cinco anos.
Jim Esposito, um dos três cochefes da divisão de banco de investimento e corretagem do Goldman, e que, se sabe, tinha ambições de ser executivo-chefe, desistiu de esperar. Ele saiu no início de 2024 e depois se juntou à corretora Citadel Securities, que se tornou um refúgio lucrativo para ex-executivos do Goldman em busca de novas oportunidades.
Outros nomes da próxima geração do Goldman, como Gregg Lemkau, Stephen Scherr e Eric Lane, já haviam saído. Os rumores em Wall Street também colocavam Waldron como um nome disponível no mercado, tendo em vista que o cargo máximo talvez tenha ficado mais distante após essas indicações de Solomon.
A abordagem da Apollo a Waldron se deu enquanto a firma se transformava em um negócio cada vez mais internacional, o que exigia executivos com experiência na liderança de operações financeiras grandes e complexas — algo que Waldron possuía de sobra, já que supervisionava o dia a dia do renomado banco de investimento de Wall Street.
Quando Waldron informou o Goldman sobre suas conversas com a Apollo, o banco não tinha como igualar a oferta de US$ 500 milhões. Entre os executivos-chefes dos grandes bancos de Wall Street, apenas Jamie Dimon tem ganhos acumulados que podem ser comparados — e levou quase 20 anos à frente do J.P. Morgan para consegui-los.
Para ficar, Waldron recebeu incentivos, como uma bonificação de retenção de US$ 80 milhões ao longo de cinco anos — a mesma concedida a Solomon — e um assento no conselho. Um ponto que pode ser importante para Waldron é o fato de o pagamento a ser recebido por Solomon não estar condicionado a ele permanecer como executivo-chefe durante todo esse período, o que poderia abrir portas para uma sucessão antecipada, com Solomon tornando-se presidente do conselho.
No entanto, processos de sucessão em Wall Street raramente são tão simples.
Há dez anos, Gary Cohn, então presidente do Goldman, era o favorito para suceder a Lloyd Blankfein como executivo-chefe. Ele esperou tanto tempo que o “The New York Times” o apelidou de “o Príncipe Charles de Wall Street”. No fim das contas, ele acabou desistindo e aceitou um cargo no primeiro governo Trump.
A saída de Cohn para Washington, no fim de 2016, permitiu que Solomon fosse indicado copresidente ao lado de Harvey Schwartz, um executivo sênior da área de corretagem. Um colega que trabalhou com ambos na época descreve o relacionamento deles como “insustentável”, em função da pressão da disputa pela sucessão. Schwartz deixou o Goldman quase de imediato depois que Solomon foi promovido ao cargo de executivo-chefe.
No Morgan Stanley, historicamente o maior rival do Goldman, James Gorman, o executivo-chefe anterior ao atual, anunciou que três executivos estavam na disputa para sucedê-lo.
Embora esse processo público de sucessão pudesse facilmente ter saído pela culatra, os dois candidatos derrotados permaneceram na empresa mesmo depois de Ted Pick ser nomeado executivo-chefe — motivados por pacotes de retenção de US$ 20 milhões oferecidos pelo Morgan Stanley.
No UBS, que passou por uma troca turbulenta de executivos-chefes após ter socorrido o rival Credit Suisse, o presidente do conselho de administração, Colm Kelleher, citou o “golpe sem derramamento sangue” do Morgan Stanley como o modelo que espera seguir na próxima sucessão.
Alguns antigos sócios do Goldman acreditam que a sucessão de Solomon ainda não está completamente definida. Marc Nachmann, 54, atual chefe da divisão de gestão de ativos e fortunas e que já trabalhou em quase todas as principais áreas do banco, é visto como um azarão na disputa pelo cargo. Outros nomes internos citados são Dan Dees e Ashok Varadhan, cochefes da divisão de banco de investimento e mercados.
Há também quem acredite que, após a recente valorização das ações do banco, Solomon poderia se sentir encorajado a permanecer no comando por ainda mais tempo — com o que talvez até se pularia uma geração na disputa pela liderança. Isso beneficiaria uma série de executivos de banco de investimento e operadores na faixa dos 40 anos que foram promovidos ao comitê executivo do Goldman no início de 2025.
Ao longo dos anos, circulou dentro do Goldman a possibilidade de que Waldron pudesse ser seduzido para trabalhar em Washington, seguindo os passos de Cohn, Hank Paulson e Steven Mnuchin.
Republicano, Waldron já alertou no passado contra o endividamento excessivo dos Estados Unidos, e havia rumores de que ele estaria aberto a uma posição no governo Trump.
Por agora, essa porta parece continuar fechada, mas alguns acreditam que ele ainda poderia seguir carreira política quando sair do cargo que agora parece estar perto de suas mãos.
*Colaborou Antoine Gara, em Nova York
20/03/2025 14:30:20
*Com informações do Valor Econômico
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