‘Economia vai começar a desacelerar em breve’, diz José Carlos Carvalho, da gestora Vinci

A desaceleração da atividade econômica, que deve ser sentida já nos dados do PIB (Produto Interno Bruto) do quarto trimestre, justifica a abordagem mais cautelosa do Banco Central (BC) de não querer se comprometer com uma nova alta da Selic na reunião de maio.
A avaliação é do responsável pela área de macroeconomia da gestora Vinci, José Carlos Carvalho.
Para ele, a perda de tração da atividade pode fazer, inclusive, com que o Copom encerre o ciclo de aperto monetário em 14,25%.
“A política monetária foi para um nível muito contracionista, o que deve começar a aparecer nos dados de atividade. Para o quarto trimestre, temos uma projeção de crescimento de 0,1% do PIB, contra um consenso do mercado de 0,6%”, diz.
Confira entrevista concedida ao jornalista Gabriel Roca, do Valor Econômico, parceiro de conteúdo da Inteligência Financeira.
Qual foi a avaliação geral do comunicado do Copom?
Não teve muita novidade e veio bem em linha com o esperado. A grande dúvida era se ele ia manter o plural para a orientação de elevar os juros em 1 ponto ou mudaria o “guidance” para o singular, que foi o que acabou acontecendo.
Obviamente o BC não diz que o ciclo de aperto monetário acabou e dá a entender que quando entregar a próxima alta, vai avaliar uma série de fatores.
Mas, de hoje, dada a distância, o Copom entende que não faz muito sentido se comprometer com uma nova alta para além daquela que já estava indicada. Era o esperado.
Acredita que essa estratégia é a correta?
Sinceramente, acredito que sim. Por quê? A taxa de juro real de um ano, se descontada a inflação um ano à frente, já está em torno de 10%.
O BC diz que o juro neutro é 5% e uma parte do mercado diz que o juro neutro é 7%. Mesmo se você levar em conta o juro neutro do mercado, já temos uma taxa bastante restritiva.
A grande pergunta que o mercado faz é por que o juro chegou em um nível tão elevado e a economia não esfriou. Isso está gerando muita angústia.
Por que isso aconteceu?
No mesmo momento em que o BC passou a subir os juros, o governo fez uma política fiscal muito agressiva. O gasto do governo federal era de 18% do PIB no início do mandato e esse gasto chegou a 20,4% do PIB no meio do ano passado.
A política monetária colocou o pé no freio, mas a política fiscal colocou o pé no acelerador.
E daqui em diante?
Mais recentemente, a política fiscal ficou um pouco mais frouxa — pelo menos deixou de empurrar a economia para frente — e está mais neutra.
Mas a política monetária foi para um nível muito contracionista, o que deve começar a aparecer nos dados de atividade. Para o quarto trimestre, temos uma projeção de crescimento de 0,1% do PIB, contra um consenso do mercado de 0,6%.
O BC, então, decidiu incluir esse risco de desaceleração no balanço de riscos. Toda essa preocupação sobre a economia que não estava desacelerando, acredito que vamos começar a ver em breve.
Essa desaceleração vai ser suficiente para trazer melhora às expectativas de inflação?
Mesmo no nosso caso, que estamos um pouco mais otimistas, acreditamos que o pico da inflação deve ser em abril. Vai ser um pouco depois do próximo Copom, mas não acreditamos que haverá “moleza” nos dados em fevereiro e março.
Uma eventual queda do juro longo vai depender muito do mercado começar a ter essa percepção de que a atividade está desacelerando. Os números de inflação e das expectativas demoram mais para ceder.
Mas, olhar para a inflação é olhar para o retrovisor e acho que chegamos em um nível de juro real que já devemos olhar para frente. Com o juro real de 10% e a parte fiscal parando de empurrar a economia, isso pode gerar uma desaceleração da atividade.
Como a economia deve se comportar daqui em diante?
Temos 4,8% de inflação para esse ano. Acreditamos que ela começa a desacelerar no terceiro trimestre e, se estivermos dentro do cenário de perda de força da atividade, podemos eventualmente ter cortes de juros no fim do ano.
Como eu espero que a atividade já comece a perder força, acredito que o BC pode interromper o ciclo de juros nos 14,25% e manter esse patamar por bastante tempo, esperando a inflação começar a ceder.
São muitas variáveis. A visibilidade é muito ruim e estamos em um ponto de virada que é difícil fazer projeções para o longo prazo.
Quão intensa deve ser a desaceleração da economia?
Para 2025, trabalhamos com projeção de 1,8% de crescimento. Mas deste crescimento, 0,8 ponto deve vir do setor agrícola e apenas 1 ponto do setor não agrícola.
Esta é uma composição de PIB que pode ajudar a inflação. Os preços dos alimentos, ração, frango acabam caindo, trazendo algum alívio.
O cenário pode ser percebido como uma “estagflação”?
A inflação subiu bastante devido a um PIB que trabalhou acima do potencial por vários anos seguidos. Para curar essa doença, a única receita é reduzir a atividade e é isso que deve acontecer em 2025.
A inflação ainda deve ser alta e devemos ter menos crescimento. Certamente não é um cenário bom para ambições eleitorais de nenhum governo.
A inclusão dos riscos à atividade doméstica no balanço de riscos não pode soar como suave?
Se há algum apontamento que possa ser feito como ‘dove’ [favorável à flexibilização] no comunicado, seria isso.
Mas eu tenho essa projeção de desaceleração da atividade e, possivelmente, o Banco Central também está monitorando esse risco.
Ele está chamando atenção para um aspecto, que sequer foi incluído na descrição da atividade corrente, foi citado como um risco.
E ele mantém a porta aberta para, caso precise, continue subindo os juros. Ainda temos muito tempo até a próxima reunião. No Brasil, isso é uma eternidade.
Entrevista concedida ao jornalista Gabriel Roca, do Valor Econômico; publicada em 30 de janeiro de 2025.
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