Petrobras (PETR3; PETR4) subsidia o preço do combustível: isso coloca a estatal em risco?

Entenda os motivos que levam empresa a adotar tal estratégia

Empresas citadas na reportagem:

A Petrobras (PETR3; PETR4) está subsidiando combustíveis no Brasil pra reduzir o impacto na inflação. Mas o que pouca gente pensa é: será que isso pode complicar a situação financeira da empresa?

Com o fim da política de Paridade de Preços de Importação (PPI), em maio de 2023, a estatal adotou uma nova regra de precificação com o objetivo de ‘abrasileirar’ o valor do diesel e da gasolina, uma promessa de campanha do presidente Lula.

O diesel por exemplo, produto que individualmente mais gera receita para a empresa, não passou por nenhum reajuste em 2024 até ser aumentado na última sexta-feira (31) em R$ 0,22 por litro.

Do lado da gasolina, o último reajuste aconteceu em 8 de julho de 2024. Foi um aumento de R$ 0,20 por litro.

Por falar em gerar receita, aqui vai a primeira curiosidade para os leitores da coluna: 55% das receitas totais da estatal vêm do segmento de refino, aquele que transforma petróleo bruto em derivados como diesel, gasolina, GLP e querosene. Isso conforme o último resultado divulgado pela empresa.

Mas ao contrário do que muitos poderiam pensar, o segmento de extração e produção de petróleo tem uma participação menor, ao trazer apenas 39% das receitas.

Alguém poderia dizer então que a Petrobras não é uma empresa de petróleo, mas de refino de combustíveis. Mas aqui há algo ainda mais curioso. Apesar de trazer menos receitas, o petróleo tem uma margem Ebitda muito superior ao refino. 67% contra 7%.

Isso faz com que o negócio de extração seja muito mais rentável que os demais, sendo responsável por 88% do lucro operacional da empresa.

Julho a setembro | 2024RefinoExtração e
produção
Receitas totais55%39%
Margem Ebitda7%67%
Lucro Operacional9%88%
Fonte: Petrobras RI

Sacrificar o refino ao subsidiar a venda de combustíveis penaliza, mas não de forma relevante as finanças da empresa.

De acordo com a Refina Brasil, associação que reúne as refinarias privadas do País, desde maio de 2023, a Petrobras já deixou de ganhar aproximadamente R$ 20 bilhões com sua política de não repassar aumentos.

Para termos um parâmetro, o segmento de extração de petróleo da empresa, apenas no 3° trimestre de 2024, teve lucro líquido de US$ 5,4 bilhões. Ou quase R$ 32 bilhões na cotação atual da moeda americana.

Isso indica que o lucro da empresa com extração, apenas entre os meses de julho a setembro do ano passado, equivale ao que a associação estima que a estatal deixou de ganhar nos últimos 23 meses por não reajustar os combustíveis.

E é por isso, inclusive, que as ações da petroleira não param de subir. O mercado faz essa conta e percebe que, com o petróleo Brent próximo a US$ 80 por barril, a empresa é uma máquina de imprimir dinheiro. E pagar dividendos.

Subsidiar combustíveis, apesar de impactar pouco as finanças da empresa, acaba por prejudicar o polo industrial brasileiro. Afinal, vender mais barato do que a concorrência impede a entrada de novos players no segmento de refino.

Ainda segundo a Refina Brasil, 80% da capacidade brasileira de refino está nas mãos da Petrobras. E refinarias privadas, como a Acellen e a Brava, já preferem exportar sua produção, uma vez que não é rentável vender no mercado brasileiro ao preço praticado pela Petrobras.

Só ela tem a opção de bancar esse prejuízo através da sua área de exploração de petróleo. E aqui chegamos na curiosidade número 2:

O custo da Petrobras para extrair um barril de petróleo está atualmente em US$ 22,33. Isso depois de pagar royalties para o governo e afretamento, ou seja, o aluguel da embarcação que faz a exploração.

O custo sem royalties e afretamento está em impressionantes US$ 5,96, um dos mais baixos do mundo.

Contei tudo isso pra dizer (escrever) que temos uma das empresas de petróleo mais eficientes do mundo em exploração de águas profundas. Poucas fazem tão bem quanto a Petrobras e por isso é tão importante seguirmos atentos para garantir que continue assim.

Gostou do conteúdo? Eu sou o Bruno Paolinelli, especialista de investimentos CEA, e estarei quinzenalmente aqui na Inteligência Financeira.

Até a próxima

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