Os anos 1980 ficaram famosos no Brasil por produzirem o que se convencionou chamar de hiperinflação. Parte da alta exponencial dos preços nesse período esteve relacionada a algo chamado indexação da economia.
Essa indexação impõe que os preços sejam ajustados automaticamente via indicadores ou indexadores. Hoje, alguns dos mais conhecidos são o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e o IGP (Índice Geral de Preços).
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Os indexadores são utilizados para evitar que vendedores vejam o valor de seus produtos e serviços ficarem defasado em relação à alta geral dos preços.
Contudo, a indexação – a depender da maneira como é feita – pode criar distorções e ajudar a elevar os preços de maneira descontrolada.
Durante o período mencionado anteriormente, o da hiperinflação, os choques de preço nas economias global eram constantes. E em geral esses choques eram transmitidos diretamente para a economia brasileira. Tivessem ou não impacto com a realidade local.
Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, ao lado do presidente Itamar Franco. FHC constantemente fazia a ponte entre a equipe que criou o Plano Real e o Palácio do Planalto. Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo – 20/7/1993
Fernando Henrique Cardoso segura a cartilha da URV. A Unidade Real de Valor foi exaustivamente explicada para a população e dessa estratégia dependia o sucesso inicial do Plano Real. Foto: Wilson Pedrosa/Estadão Conteúdo – 1/3/1994
FHC posa com as cédulas do Plano Real. A logística de distribuição das cédulas envolveu importação de papel moeda, uso de figuras repetidas e até transporte por navio. Foto: Getúlio Gurgel / Acervo Instituto FHC
O Plano Cruzado foi a principal aposta do presidente José Sarney para conter a inflação. O governo pediu apoio da população para fiscalizar os preços, que estavam congelados. A foto é de março de 1986. Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo – 3/3/1986
O Plano Cruzado fracassou e o destino de outro plano, o Verão, foi o mesmo. Na imagem, consumidores se deparam com prateleiras vazias em supermercados. Era 1989, quase no fim do governo Sarney. Foto: Norma Albano/Estadão Conteúdo – 31/1/1989
A remarcação de preços era uma constante no Brasil na época da hiperinflação. A famosa máquina retratada na imagem era bastante usada na época. Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo – 6/11/1988
A ministra Zélia Cardoso de Mello explica em entrevista coletiva o Plano Collor. O principal ponto do programa foi o que causou mais aflição na população: as poupanças dos brasileiros foram confiscadas. O plano também fracassaria. Foto: Protásio Nene/Estadão Conteúdo – 16/3/1990
Correntistas fazem fila em agência do banco Banespa, em São Paulo, para desbloquear o dinheiro retido desde a implantação do Plano Collor. A imagem é de 1991 e o plano já havia fracassado. Foto: Epitácio Pessoa/Estadão Conteúdo – 15/8/1991
A formação da equipe econômica que formularia o Plano Real continha nomes importantes como o de Pedro Malan, que antes de assumir a presidência do Banco Central era o negociador da dívida externa brasileira com o FMI. Foto: Álvaro Motta/Estadão Conteúdo – 20/11/1994
Os economistas Persio Arida e Gustavo Franco também integravam a equipe que idealizou o plano que mudou o Brasil. O registro fotográfico é de 1995. O Plano Real já havia dado certo e caído no gosto da população. Foto: José Paulo Lacerda/Estadão Conteúdo – 10/03/1995
Membro da Academia Brasileira de Letras e economista, Edmar Bacha foi quem rabiscou o Plano Real em um papelzinho azul no apartamento de Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda. Foto: Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo – 28/8/1995
1994 é o ano zero do Plano Real, mas também está repleto de acontecimentos marcantes. Na foto, o capacete de Ayrton Senna repousa sobre o caixão que abriga o corpo do piloto, morto em um acidente automobilístico durante uma prova de Fórmula 1 na Itália. Foto: Luiz Prado/Estadão Conteúdo – 6/5/1994
Cortejo com o corpo do piloto Ayrton Senna parou as principais ruas de São Paulo. Foto: Milton Michida/Estadão Conteúdo – 4/5/1994
Mas 1994 é também o ano da conquista do tetracampeonato pela seleção brasileira de futebol. A vitória nos Estados Unidos, nos pênaltis, diante da Itália marcou o fim do jejum de títulos que já durava 24 anos. Desde 1970 o Brasil não vencia uma Copa do Mundo. Foto: Gábio M. Salles/Estadão Conteúdo – 17/07/1994
São Paulo parou para receber os tetracampeões, que desfilaram em carro aberto. Foto: Nelson Almeida/Estadão Conteúdo – 29/07/1994
Para alguns, a consolidação definitiva das conquistas alcançadas com o Real veio apenas com a troca de poder. Fernando Henrique deixou a presidência e Lula assumiu. Ele manteria, em muitos aspectos, a política econômica dos anos de FHC. Dida Sampaio/Estadão Conteúdo – 11/9/2003
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“Vamos supor que (após) um choque no cenário externo, o dólar disparasse. Isso jogava inflação global para dentro do Brasil por diferentes canais”, explica o economista André Perfeito.
Aluguel como exemplo
O economista diz que essa realidade ainda existe, de internalização de choques externos sem uma relação direta com a economia local. O ajuste do preço do aluguel é um exemplo.
Isso porque o preço do aluguel é acrescido da variação do IGP. Perto de 60% desse indexador é composto de preços do atacado, que são muito suscetíveis à variação do preço do dólar em relação à moeda local.
Ainda que, na realidade, o preço do aluguel não esteja tão relacionado assim à variação cambial.
“(O indexador) foi usado de forma absolutamente leviana”, avalia Perfeito. O resultado disso tem sido a evolução dos preços do aluguel acima da inflação média da economia.
Para se ter uma ideia do efeito disso, o preço do aluguel – calculado utilizando o IGP-M – subiu três vezes mais que o IPCA – que é o índice de inflação geral em 2023.
Mudança gradual
Desde a implementação do Plano Real em 1994 a economia brasileira se tornou menos indexada. Segundo Perfeito, o controle da inflação permitiu remover algumas dessas indexações.
“À medida que o horizonte inflacionário se torna menos pesado no curto prazo, a tendência é que as pessoas partam de um modelo que trava as negociações via indexadores para um modelo de livre negociação”, diz o economista.
O ideal, segundo ele, é que tudo seja negociado.
Nesse sentido, o Plano Real ajudou a remover algumas indexações.
“Contudo, tem questões outras de hábito e cultura. Dificilmente vão querer fazer contratos nominais (sem ajuste automático via índices) no Brasil”, avalia.
IPCA como indexador ‘mais saudável’
Por outro lado, há casos em que as indexações restantes foram adaptadas.
Hoje, o IPCA é o indexador mais utilizado para ajustes de contratos. E, por ser o índice de inflação geral, é considerado ‘mais saudável’.
Com as mudanças depois do Plano Real relacionadas à desindexação ou mudança no indexador, “o Brasil avançou bastante”, avalia Perfeito.
Embora “ainda tenha muito o que avançar, mas não tem como fazer por decreto. E, sim, à medida que a economia vai se tornando mais saudável”, conclui o especialista.
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