Análise: ameaças e tarifas de Trump devem se voltar contra o dólar no longo prazo

Avaliação pode estar correta no caso das ações, mas investidores também podem estar equivocados sobre o efeito do fenômeno sobre a moeda americana

O impacto das tarifas que Donald Trump ameaça impor aos seus parceiros comerciais ainda é incerto. No entanto, o mercado parece ter concluído que o tarifaço sobre importações nos Estados Unidos é prejudicial para as ações americanas, mas benéficas para o dólar. Será que isso é verdade?

Bom, embora essa avaliação possa estar correta no caso das ações, os investidores podem estar equivocados sobre o efeito do fenômeno sobre a moeda americana.

A percepção do mercado ficou evidente no comportamento dos investidores nesta segunda-feira (3). Após Donald Trump anunciar no sábado tarifas significativas sobre produtos importados do Canadá, do México e da China, o índice S&P 500 caiu 2% logo no início do pregão.

No entanto, quando os Estados Unidos adiaram a aplicação das tarifas ao México (e, posteriormente, ao Canadá) por um mês, o mercado acionário, então, recuperou a maior parte das perdas.

Em sentido inverso, após o anúncio inicial, o dólar americano subiu contra as principais moedas. O índice DXY, que mede o desempenho da divisa americana frente as demais moedas fortes do mundo, subiu 1,3%. Com a notícia do adiamento, o dólar perdeu força, revertendo assim os ganhos anteriores.

Tarifas prejudicam ações e beneficial dólar?

A ideia de que as tarifas prejudicam as ações americanas faz sentido. Mas, em um relatório distribuído nesta terça-feira (4) aos principais gestores ocidentais, a Gavekal, casa de análise sediada em Hong Kong, questiona esse fato.

Para o analista Tan Kai Xian, que assina o documento, até dá para argumentar que as tarifas de Trump sobre importações nos EUA seriam positivas tanto para o mercado acionário quanto para o dólar. Isso porque elas aumentariam a rentabilidade do capital investido na produção doméstica em relação à produção no exterior. Assim, elevariam o valor presente dos ativos americanos, fortalecendo a moeda que Donald Trump carrega na carteira.

No entanto, diz Xian, a economia global é muito mais complexa.

“Com cadeias de suprimentos interligadas internacionalmente, a imposição de tarifas pode ser comparada a jogar areia nas engrenagens de uma máquina delicada. Embora muitas empresas tenham tido tempo para se preparar, antecipando estoques e diversificando fornecedores, as tarifas ainda causariam grandes disrupções nas cadeias produtivas. E imporiam custos adicionais significativos para as empresas americanas”, afirma.

Nesse caso, o dólar seria o refúgio?

Os investidores reagiram às tarifas de Trump reduzindo o preço das ações americanas e, ao mesmo tempo, valorizando o dólar em relação a outras moedas.

Isso ocorreu pela ideia de que tarifas favorecem a competitividade relativa dos EUA. Além disso, existe a crença de que a economia americana sofreria menos em uma guerra comercial global, devido à sua menor dependência do comércio exterior.

Em 2023, por exemplo, as exportações e importações representavam 25% do PIB dos EUA. Enquanto isso, na China, esse número era de 37%. No Canadá, alvo da vez de Trump, o comércio internacional impactou em 67%. E no México do nearshoring, 73%. Isso faz com que o dólar pareça um porto seguro em meio a incertezas globais.

Contudo, esse raciocínio ignora a relação entre o mercado acionário e a moeda americana. “Uma queda acentuada nas ações pode reduzir o interesse dos investidores estrangeiros em manter ativos nos EUA”, aponta a Gavenkal.

Além disso, como a valorização patrimonial dos lares americanos desde 2022 foi impulsionada pelo mercado de ações, um declínio nas bolsas poderia levar as famílias a reduzir seus gastos para poupar mais. Isso prejudicaria o crescimento da economia americana, altamente dependente do consumo.

Se isso ocorrer, resume o documento, a demanda mais fraca e o crescimento econômico reduzido poderiam levar o Federal Reserve (o banco central americano) a adotar uma política monetária mais branda. Enfraquecendo, assim, o dólar.

Um dólar mais fraco, por sua vez, diminuiria o apetite dos investidores estrangeiros por ativos americanos, criando um ciclo negativo. Esse efeito poderia ser amplificado caso o iene japonês se valorizasse, incentivando a repatriação de capitais do mercado americano para o Japão, como se viu no segundo semestre do ano passado.

Dólar e ações podem sofrer com tarifas de Trump

Esse cenário ainda não é inevitável. O governo Trump pode optar por não seguir adiante com as tarifas em troca de concessões comerciais, como sugeriu o adiamento das tarifas ao México e ao Canadá.

No entanto, se as tarifas de Trump forem impostas de forma ampla e prolongada, é possível que o mercado acionário sofra perdas significativas, revertendo a valorização inicial do dólar e, ao contrário das expectativas atuais, resultando em uma moeda americana mais fraca no longo prazo.

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A consulta ocorreu no fim do ano passado. Juntos, eles reúnem R$ 1,8 trilhão de ativos sob custódia. Os investidores se dizem pessimistas para a economia brasileira em 2025.

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